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  • Writer's pictureLuiza Ribeiro

Cordas invisíveis

As minhas raízes penetram o solo úmido em desesperança -- presa para sempre a este local; livre somente para crescer para cima. Quanto mais subia, porém, mais notava o céu, essa entidade em constante mudança. Em algumas ocasiões ele é liso como pele de pêssego, estendendo-se infinitamente em múltiplos tons de azul que, às vezes, contém uma única e solitária nuvem -- situada em algo muito maior que ela. Outras vezes ele parece contido, como se suas bordas fossem tangíveis, como se ele estivesse consciente da natureza efêmera das coisas. Muitas vezes ele chora, pois todos os seus pedaços de tensão acumulam e, quando percebe que a pressão não cabe mais em si mesmo, ele explode, lançando gotas afiadas de raiva e raios sobrecarregados. Mas isso passa e, após esse momento de tensão, raios solares penetram-no, modificando sua cor para um rosa-alaranjado ou dourado. Talvez a sua única constante seja o fato dele estar sempre acima de tudo, olhando constantemente para baixo, para os eventos que desenrolam rapidamente, para as aves que voam.

Há aves que não conseguem voar, porém, como a galinha. Às vezes ela consegue bater suas asas rapidamente e tirar seu corpo do chão -- mas isso é só por alguns segundos e uma breve ilusão de poder, de fato, voar. Ela, então, bota muitos ovos para preencher esse vazio de não conseguir voar. O ovo, que é fonte de grande parte da vida. É engraçado como a origem das coisas são todas circulares: ovos, sementes, planetas. O círculo é algo completo, vazio, sem lados, com uma infinidade de lados -- uma figura bastante contraditória, com certeza. A galinha também é contraditória. Pelo menos a que eu conheço é. A que sempre chega perto de mim e dá bicadas em meu tronco, removendo partes dele. Ela é muito fraca e medrosa para tudo, não pode ouvir um raio que sai correndo, gritando e importunando todo mundo. Ela é forte e corajosa também; não pode ver seus pequenos em perigo que corre para protegê-los. Ela odeia muito e ama muito; canta muito e se silencia muito. Tudo nela funciona na base de extremos, não há um foco, algo que a defina. As outras aves, aquelas que de fato voam, têm muito menos dimensão. Estão sempre correndo rapidamente pelo ar, olhando para frente, levados para outro local pela mudança do tempo. Sempre voam acorrentados pelo céu.

Uma vez um barco foi acorrentado ao lado da praia. Dele saiu um homem completamente encharcado e alguns outros animais. O mar estava agitado naquele dia e a sua espuma salgada quebrava na borda da areia como vidro, com seus pedaços refletindo a chama luzida do sol. Era preferido que o mar fosse menos agitado, que fosse mais calmo e sereno, que suas ondas fossem menores, que fosse mais quente. Mas essas expectativas nem sempre eram cumpridas -- isso deixava o mar imprevisível e muitos não sabiam lidar com isso. A onda subia e descia, presa em um ciclo perpétuo e mundano. Nunca ia contra sua natureza, continuava subindo e descendo -- controlada pela lua. O mar, ancorado na terra, aparentando ser somente a reflexão do céu, uma tentativa de espelho, mas com uma profundeza muito mais vasta e misteriosa.

O homem encharcado não foi o primeiro de seu tipo que vi -- havia muitos outros. Eles ficavam cada vez mais cobertos toda vez que eu os via. Nunca pareciam ser o que eram -- mesclavam com a natureza e sua perpétua fluidez e mudança. Ao mesmo tempo, porém, se destoavam dela, pois perceberam a maleabilidade de tudo antes do tudo. Assim, conseguiam construir, quebrar e transformar os seus arredores e si mesmos. Eram difíceis de entender, como a galinha, mas havia uma certa constância neles, como o céu. Não individualmente, mas no coletivo, estavam em uma situação estática -- uma instituição, na verdade. Estavam engessados a um padrão, estavam submetidos a expectativas, mesmo quando são fluídos demais para essa rigidez -- como o mar. O que eles moldaram endureceu em sua volta. Mas, como o ovo, precisaria de algum tempo para a casca na sua volta quebrar -- é necessário força o suficiente para rachá-la. Mas eles conseguem, pois são rebeldes, e é essa rebeldia que os fez quebrar a primeira constância: a bondade.

A verdade é que era inevitável. Não eram puros e se sentiam atraídos pelo que não podiam ter. Mas eu sim sou pura, deixo o ar mais puro. Mas, como eles, também estou acorrentada, presa pelas raízes. Acho que tudo é, senão teria o risco deles se afastarem para muito longe; para um lugar que seria difícil retornarem para onde estavam: para quem eram. Mas eles conseguem mudar suas correntes, não é fácil, mas é possível. Conseguem mudar onde tradicionalmente eram esperados para estar porque podem ser rebeldes. Fico feliz pela sua rebeldia -- possibilitam o término das coisas, somente para nascerem de outra forma, melhor talvez.



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