• Giovanna Alvarenga

Refúgio

Updated: Sep 14

Neste instante me encontro em minha única guarida, uma vez que minha casa já não condiz com seu principal objetivo:

Juntar e recuperar o que outrora foi uma família parcialmente feliz.

Meu irmão nunca esteve presente, e por mais que meus pais o protejam até a morte, sei que não trabalha e que se afundou em qualquer vício que não tem volta. Minha irmã mais velha foi a afortunada, benquista por ambos. Quando completou 18 anos, ganhou uma viagem para bem longe, e apesar de não querer terminar com seu namorado, conseguiu finalmente deixar seu lar. E claro, alguém seria o patinho feio, a malsucedida e azarenta. Quando fiz meus 17, me esforcei demasiadamente para ter um trabalho honesto e superior a minha capacidade para, em primeiro lugar, impressionar meus pais. Quando lhes contei que seria supervisora de vendas de uma empresa desconhecida, se entreolharam. Eles sabiam que seria minha última opção de emprego se tivesse seguido meu coração. Meu sonho maior sempre foi estudar teatro, mas meu pai disse que nunca seria alguém respeitada e que seria impossível alcançar o nível desejado de sucesso. Além de trabalhar, tinha a escola. Meu pai trabalhava o dia todo, e minha mãe idem, então nunca tinham tempo para ajudar. Isso, em parte, me auxiliou a ganhar independência e de nunca precisar do outro. Meus pais brigavam sempre que se encontravam. A salvação para o casamento era sua rotina corrida, porque assim, mal se viam. Sabia que não estavam felizes juntos, mas que separados seria pior. Minha mãe tinha uma grande dependência emocional, que só piorou ao longo dos anos. Já não tinha a personalidade marcante que sempre teve e buscava sempre aprovação de meu pai para tudo. Como se não bastasse esse relacionamento deles, eu era um estorvo, que mesmo quieta, silenciosa, causava discórdia. Tentava ao máximo permanecer em meu quarto à noite, estudando ou trabalhando, mas era sempre interrompida com reclamações alegando minha inutilidade.


--Porque não faz como sua irmã e dá o fora daqui de uma vez, diabo!-- diz meu pai.

Sempre respondo à altura, coisa que em nosso ambiente familiar é pouco comum:


-- Acalme-se papai. Que tal se saio antes, despreparada e acabo como meu querido irmão? -- E assim, garanto meu castigo.


Diálogo nunca foi o forte de nenhum parente meu, o que fez com que minha individualidade destoasse ainda mais. Sempre fui capaz de resolver assuntos que de fato me incomodavam, talvez por isso sou a menos admirada da casa. Para meus pais é de extrema inconveniência responder qualquer pergunta que não seja com monossilábicos, ou argumentar sobre assuntos polêmicos. Por todos esses motivos, me isolo. Assim posso conversar comigo, questionar-me, reflexionar ou simplesmente contemplar. Buscar amparo para essa lacuna que me falta. Buscar refúgio. Poder existir integralmente sem algum porém. Poder ser, sem receio. Poder amar-me por completo e que só isso baste.


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