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Estamos revivendo a música ou apenas sua estética?

Writer: Emanuelle Santos
Emanuelle Santos
22 hours ago
5 min read


No momento em que uma sigla criada para representar parte da música brasileira passa a representá-la por completo, o que acontece com os gêneros que ficam para trás? Existe algo muito estranho na maneira em que atualmente falamos sobre a música brasileira. Basta uma música ser antiga, ter um violão, uma voz suave, uma letra minimamente poética ou simplesmente ter sido lançada décadas atrás para alguém afirmar: “Isso é MPB”. E, de alguma forma, nos últimos anos estamos aceitando isso como verdade.


Mas quando foi que o MPB deixou de ser uma sigla associada a um contexto musical e histórico específico, e passou a significar praticamente qualquer coisa que pareça ser “música brasileira de antigamente”? No primeiro momento, esse detalhe pode parecer só uma questão de classificação, afinal, qual seria o problema de chamar uma música brasileira de MPB? O problema é que, desde que começamos a colocar diferentes gêneros dentro da mesma caixa, deixamos de enxergar o que existe dentro dela. MPB significa Música Popular Brasileira, mas música popular brasileira não significa necessariamente MPB.


A diferença parece pequena nessa frase, mas não é. A sigla  MPB se consolidou majoritariamente durante os anos de 1960, em um período brasileiro fortemente marcado pelos festivais de música, a Bossa Nova, pelas canções de protesto, as transformações políticas e culturais, e principalmente pelas mudanças na indústria musical brasileira. Ou seja, o MPB nunca foi simplesmente uma maneira curta de dizer “toda música popular feita no Brasil”, mas sim algo muito mais representativo do que um movimento só. Com o passar das décadas, essa classificação foi ficando cada vez mais ampla, principalmente na geração atual. Artistas e músicos de diferentes épocas passaram a ser classificados retrospectivamente como MPB, mesmo quando pertencem a gêneros e contextos que existiam antes da própria consolidação da sigla. 


Ruy Castro, em seu artigo “Tudo é MPB” publicado pela Academia Brasileira de Letras, discute justamente essa transformação e mostra artistas como Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Ary Barroso, Noel Rosa e Luiz Gonzaga podem acabar colocados sob o enorme guarda-chuva da MPB, enquanto os gêneros associados às suas obras — citados como baião, samba-canção, valsa e toada — ficam em segundo plano, e é aqui que acredito que existe um grave problema cultural. Não porque chamar alguém de MPB seja errado, mas porque chamar tudo de MPB pode fazer com que esqueçamos o que estamos realmente ouvindo.


Imagine alguém descobrindo Luiz Gonzaga pela primeira vez. Se a primeira informação que recebe é simplesmente “ele é MPB”, essa pessoa pode até aprender que ele foi um artista importante, mas não entenderia o que torna sua música específica e única para o país. Pode não saber que está ouvindo baião, a história regional por trás daquele gênero, ou que aquela música representa uma parte específica da formação cultural brasileira. O mesmo acontece quando o choro vira apenas “MPB”, quando o samba vira apenas “MPB" ou quando manifestações musicais completamente diferentes, vindas de diferentes regiões do país, são colocadas em uma única etiqueta supérflua. A diversidade continua existindo, nós é que deixamos de enxergá-lá. Esse fator se torna ainda mais interessante quando olhamos para a maneira como a música antiga está sendo redescoberta atualmente pela famosa onda de hype.


Vivemos em uma época em que tudo parece estar voltando; vinis, câmeras analógicas, roupas antigas, músicas de décadas passadas e uma estética inteira construída em torno da nostalgia voltaram a ocupar espaço entre as novas gerações. A música brasileira também voltou, e isso não é ruim. Na verdade, existe algo muito mais positivo nisso. Uma música lançada décadas atrás pode encontrar um público que nem sequer era nascido quando ela foi criada. Redes sociais como o TikTok e Instagram tem ajudado músicas antigas e artistas brasileiros a voltar a circular entre os jovens, colocando obras que poderiam ser esquecidas novamente no centro da atenção. Artistas como Cazuza, Rita Lee e Charlie Brown Jr de repente ganharam audiência novamente pelas plataformas digitais, mas existe uma diferença entre redescobrir uma obra e transformar uma obra em estética, e essa diferença está sendo cada vez mais permanente.


Hoje, uma música pode voltar a ser popular não porque uma nova geração quer entender sua história, seu gênero ou seu contexto, mas porque determinado trecho combina com uma fotografia, uma edição de vídeo, uma “trend”, ou uma imagem específica da estética Brazil. A música acaba virando cenário,  e o artista, o gênero e a própria cultura se tornam uma simples estética instagramável, ou como dizem, algo “performático”. Tem uma grande ironia nisso: enquanto muitos acreditam estar resgatando a cultura brasileira, do outro lado da moeda podemos estar justamente simplificando aquilo que estamos tentando preservar durante os anos. É fácil olhar para uma música antiga e enxergar apenas uma representação de determinada época, o difícil é entender porque aquela música existe, quem a criou, a qual gênero pertence, quais influências carregava, qual região do país ajudou a construí-la e o que ela significava quando foi produzida. O ponto dessa problematização é a exposição das colunas sobre onde os brasileiros andam falhando. A música brasileira nunca foi uma coisa só para chegar ao ponto de ser jogada como nada, para tudo se existe um motivo por trás!


A música brasileira não parou nas décadas passadas, ela continua sendo criada, modificada e misturada por uma geração que não precisa escolher entre tradição e modernidade. Tim Bernardes, por exemplo, transita entre o indie e o rock. Jão constrói um pop contemporâneo que conversa com o sertanejo e com as experiências emocionais de sua geração. Carol Biazin desenvolve seu próprio espaço dentro do pop brasileiro, enquanto artistas como Liniker (ganhadora de um Grammy Latino), Marina Sena e ANAVITÓRIA continuam criando novas combinações entre referências brasileiras e influências contemporâneas. Eles não estão tentando repetir o que veio antes, estão fazendo algo novo. Esses artistas não precisam ser a “nova versão” de ninguém, não precisam ser o novo Caetano, a nova Gal, o novo Gil ou qualquer outro nome que já tenha sido transformado em símbolo obrigatório da música brasileira. Eles podem ser os primeiros deles mesmos. É isso que deveríamos estar procurando na música brasileira atual, não uma nova MPB, mas sim novas formas de ser brasileiro através da música.


É curioso que, em uma época em que temos acesso a mais música brasileira do que nunca, ainda seja tão fácil reduzir nossa identidade musical a uma imagem do passado. A nostalgia pode ser uma porta para a cultura, o problema é quando essa porta se torna o único caminho para seguir. Uma cultura que só consegue ser valorizada quando parece antiga corre o risco de transformar seu próprio passado em produto enquanto deixa seu presente desaparecer. Não deveríamos colocar um filtro vintage sobre uma música para considerá-la culturalmente importante, muito menos chamar tudo de MPB para reconhecer que é brasileiro, e definitivamente não deveríamos confundir preservar uma cultura com preservar apenas a estética que construíram sobre ela.


No final das contas, o problema não é a MPB existir, mas sim quando ela passa a existir no lugar de todo o resto. A música popular brasileira não deveria ser uma enorme caixa onde colocamos tudo aquilo que parece brasileiro, mas sim para vermos o quanto existe além dela. O Brasil não tem uma música, tem milhares, e agora é a hora de voltarmos a chamá-las pelos seus próprios nomes, começando a reconhecer quem vem impulsionando isso durante essa geração. 


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