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Homogeneização Cultural

Writer: Laura Lima
Laura Lima
22 hours ago
3 min read

Se você abrir o Spotify dos seus amigos, aposto que vai encontrar duas ou três músicas em comum, e esse padrão tem nome. Será que você escolhe mesmo o que ouve, ou apenas aceita o que o algoritmo coloca na sua frente?



Esse padrão se chama homogeneização cultural: o processo pelo qual culturas diferentes se tornam cada vez mais semelhantes e perdem parte de suas particularidades, principalmente sob a influência da globalização. A internet, os filmes, as séries e as músicas percorrem o mundo inteiro muito rapidamente, e o que faz sucesso em um lugar logo se torna tendência em todos os outros. O resultado é que as pessoas em Belo Horizonte, em Tóquio e em Nova York passam a se vestir e a se alimentar de maneiras cada vez mais semelhantes. Assim, surge a pergunta: se todos gostam das mesmas coisas, será que realmente escolhemos gostar delas?


Um exemplo claro são as redes de fast-food: as mesmas marcas oferecem produtos semelhantes em países muito diferentes. A PUCRS Online alerta que o processo pode levar à “perda de referências locais, costumes e tradições”. O mesmo acontece com a música. Hoje, grande parte do que ouvimos chega por meio de plataformas de streaming, como o Spotify, que registram o que cada pessoa ouve, repete ou pula e usam esses dados para prever o que nos agrada. De acordo com Thais Oliveira, do Observatório da Diversidade Cultural, esse processo forma “bolhas sonoras”: cada usuário fica cercado de sugestões parecidas com o que já escuta, o que é confortável, mas ao mesmo tempo limita o contato com algo novo e fora do óbvio. A pesquisadora Marta Ezquerra, ao revisar estudos sobre o tema, conclui que esses sistemas podem diminuir a variedade do que as pessoas ouvem. Ou seja, o que parece escolha pessoal pode ser, em parte, o que nos é apresentado. 


Porém, misturar culturas nem sempre significa perder a própria. Foi o que mostrou a Tropicália, um movimento que surgiu no fim dos anos 1960 e aproximou a música brasileira do samba, do pop e do rock. Segundo o Politize, essa integração se iniciou no Festival de Música Popular Brasileira quando Caetano Veloso, Gilberto Gil e Os Mutantes trouxeram novos elementos para suas canções. A inspiração era a antropofagia de Oswald de Andrade: em vez de copiar o que vem de fora, devorar e transformar. Ou seja, dialogar e procurar entender outras culturas é diferente de reproduzi-las sem reflexão. 


Outra figura que contribui para uma outra perspectiva desta padronização é o Ailton Krenak, do povo Kreka, nascido em Itabirinha, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Em 1987, ele marcou a história ao pintar o rosto com jenipapo durante um discurso da Assembleia Constituinte em defesa dos direitos indígenas. Em “Ideias para adiar o fim do mundo” ele questiona a ideia de uma sociedade única, como se todos coubessem no mesmo modelo de vida. Segunda uma resenha da Revista GeoNordeste, essa ideia surgiu a partir da visão ocidental e pressiona quem vive de outro jeito a se encaixar nela. Para trazer esse conceito, Krenak utiliza a imagem de um “liquidificador chamado humanidade”, que mistura em um só grupo pessoas afastadas de suas origens. Ou seja, padronizar não é só deixar tudo parecido: é escolher um modelo ou tendência e esperar que os outros se adaptem a ele.


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